Hipnose: fatos e fantasias
Muitas pessoas já ouviram falar em hipnose, um termo que é popularmente usado para descrever uma situação na qual a pessoa fica fascinada, atônita, ou perplexa diante de algum tipo de estímulo. Se este for o caso, podemos presumir, inicialmente, que a hipnose faz uso de uma forma de estímulo muito eficiente e que tem a propriedade de manter as pessoas atentas e concentradas.
O professor que cativa e empolga seus alunos, o orador que encanta a platéia, o pastor que manipula as emoções dos fiéis, o filme que parece real, a propaganda que seduz, ou o guru que ensina seus discípulos, estão usando diferentes formas desse estímulo, fixador da atenção.
Vista sob esse ângulo, a hipnose é apenas mais uma das formas de se fixar a atenção das pessoas, mas que se desenvolveu no campo médico, voltado para o tratamento de transtornos psicológicos, mas sua mitificação cultural a tornou repleta de significados e explicações sensacionalistas e folclóricos .
Fora do contexto terapêutico, a hipnose é geralmente confundida com uma técnica de controle da mente, até os psicólogos que nunca estudaram a técnica compartilham dessa visão equivocada. Na verdade, entramos várias vezes por dia em estados de transe naturalmente. Quando dizemos que “fulando está no mundo da lua”, isso significa que ele está com o pensamento longe. O estado de hipnose é exatamente isso, é permitir vivenciar experiências, lembranças e sensações de estímulos que não estão presentes na realidade externa.
Isso é tão comum que mesmo as terapias que não usam a hipnose formal podem criar um contexto propício para que o paciente desenvolva um transe espontâneo. Muitas vezes não é a hipnose que não está presente, mas sim, a falta de treinamento que faz com que os terapeutas não consigam identificar um estado de transe hipnótico.
Durante a vida, somos capazes de mudar nossa mente várias vezes, como quando nos apaixonamos e atribuimos à namorada todas as qualidades que desejamos em uma mulher. Mais uma vez não são os estímulos externos que mandam, mas nossas expectativas e pensamentos. O hipnoterapeuta se vale se semelhante procedimento para ajudar o paciente a modificar crenças prejudiciais. Ao mudarmos a forma interpretamos um estímulo, mudamos também nosso comportamento frente a ele. Este seria a terapeutica de nos “desapaixonarmos” de pensamentos e crenças prejudiciais .
Na medicina, foi a observação do poder de cura das palavras de uma figura de autoridade, como um curandeiro, que levou os primeiros médicos a testarem esse procedimento de modo sistemático e científico. Em 1841, as explicações esótéricas deram lugar a explicações que tinha como base a fisiologia humana e se tornando assim, um procedimento médico. Antes de 1841, não existia ainda o termo “hipnose”, no entanto, o uso da linguagem para conduzir os desejos e o comportamento humano na obtenção de cura das moléstias remonta à Antiguidade.
Até por volta do início do século XIX, a medicina era algo totalmente diferente do que conhecemos na atualidade, não havia uma nítida separação entre o médico, o curandeiro e o charlatão. Tal fato, fez com que padres e até reis do século XVI se auto-intitulassem “homens de cura”. A iniciativa dos padres era óbvia, uma vez que naquele tempo o conhecimento estava centrado nas mãos da Igreja. Assim as pouquíssimas pessoas que sabiam ler, ou estavam na côrte, ou nos monastérios. Os livros também eram coisa rara e restrito a esse pequeno grupo privilegiado. Os reis, por sua vez, detinham o poder financeiro e bélico, acesso à educação e ao conhecimento de livros antigos que falavam, entre outras coisas, sobre como curar as doenças.
Atribuía-se uma verdadeira revolução da medicina do século XV às obras de Paracelso (1493-1541). Sua teoria magnética, ou Sistema da Simpatia Magnética, defendia que os ímãs, assim como era capazes de atrair o ferro, também poderiam atrair certas doenças (Prado, 1967). Durantes alguns séculos, a aplicação de ímãs sobre o corpo para a cura de enfermidades foi uma dos tratamentos de saúdes mais populares. O mais interessante era que não faltavam relatos de cura e melhoria dos sintomas, após a aplicação dessas terapias.
A popularização do “poder do ímã” fez com que alguns padres jesuítas passassem a usar este metal para realização de exorcismos:
“O ímã cura os fluxos dos olhos, dos ouvidos, do nariz e das articulações externas; por este mesmo método se curam as úlceras, as fístulas, o câncer e os fluxos mentruais. Também contribui para resolver as fraturas e cura a icterícia e a hidropsia, segundo a prática me tem demonstrado com freqüência.” Relato de curandeiros do sec. XVI.
Foi a constatação, em 1786, de que os ímãs não possuíam qualquer propriedade curativa que abriu caminho para uma nova explicação do porquê algumas pessoas se eram curadas. Os cientistas descobriram que a sugestão e a imaginação poderiam ser os responsáveis pelas curas. Ou seja, a “mente” passou a ser a principal suspeita para explicação das curas.
Keith Thomas, cita o relato de um caso acontecido entre 1684 e 1691, em Durhan. Este foi o procedimento terapêutico de um médico francês que tinha um paciente que se achava possuído pelo demônio:
O médico chamou um padre e um cirurgião, enquanto se munia de uma maleta com um morcego vivo dentro dela. Ao paciente ele informou que precisaria passar por uma pequena operação para se curar. O padre iniciou uma prece e o cirurgião fez uma ligeira incisão nas costas do paciente. No momento em que foi feito o corte, o médico abriu a maleta e o morcego saiu voando pelo quarto, e médico gritou: “Olha, olha, o demônio foi embora!”. O homem acreditou e sarou.
O surgimento da hipnose em 1841, marcou o momento inicial em que o saber médico, pós-iluminista, passou a se convencer de que a mente poderia exercer nfluência sobre a fisiologia do organismo e curar certas doenças. Mas como isso era conseguido? Surpreeendentemente, a partir da linguagem. Um tipo de linguagem que guiasse as expectativas e fomentasse a imaginação na obtenção da cura, poderia ajudar, realmente, a curar as doenças.
A hipnose passou a adquirir significativa importância para a pesquisa experimental, pois o transe conseguido pela hipnose mantinha as pessoas em um estado de grande concentração e aumentava consideravelmente a resposta delas às sugestões dos experimentadores, que poderiam estudar isoladamente os “efeitos da palavra” na cura de doenças. Isso fez com que muitos médicos renomados passasem a usar a hipnose para tentar compreender a mente humana. “O tratamento hipnótico realmente significa hoje uma grande ampliação do alcance da medicina e, por conseguinte, um avanço na arte de curar.”, afirmou Sigmund Freud, em 1905, ao se deparar com a hipnose.
O estudo da hipnose serviu para que os médicos e pesquisadores pudessem observar, na prática, a capacidade de influência física que existia numa idéia, antecipando assim o que viria a se chamar Medicina Psicossomática. Como destacou Freud (1905), “A palavra, nesse caso, volta realmente a tornar-se magia.”, como nos relatos de curas do passado.
Os riscos que envolvem o uso da a hipnose em ambientes informais são semelhantes aos riscos pelo qual passa uma pessoa apaixonada. Seduzida e iludida pelos próprios desejos, a pessoa pode ser manipulada e ter seu comportamento conduzido pelo namorado sem se importar. A convicção de que todo vale a pena para manter o seu amado, a faz realizar coisas que em outra situação ela não faria. Somente após sair do “transe” e “cair na real”, é que a pessoa se torna capaz de analisar criticamente as suas ações e, sob nova ótica, se surpreender com o que foi capaz de fazer, movida pela hipnoticamente pela emoção.
Infelizmente o termo “hipnose” passou a ter uma representação social bem diferente da intenção inicial dos seus criadores. O que deveria ser um método de intervenção médica, natural e eficiente, se tornou um esteriótipo usado pelo cinema em filmes de terror e em espetáculos sensacionalistas de hipnose de palco, para fins de entretenimento e diversão.
Em uma pesquisa realizada pelo professora de psicologia Deirdre Barrett, da Harvard Medical School, e publicada no American Journal of Clinical Hypnosis, foram analisados 230 filmes em que a hipnose era mencionada. Deste total, menos de dez filmes retratavam uma imagem realística da hipnose, a maioria divulgavam uma imagem totalmente fantasiona e preconceitusa (Barrett, 2007). (Veja um exemplo no vídeo no final do artigo).
O objetivo da hipnoterapia, realizada por psicólogos e médicos, é atingir um estado de transe terapêutico, período durante o qual o paciente é capaz de quebrar padrões limitados de aprendizagens e mudar algumas crenças que os ajudem a realizar modificações em seu comportamento. Enquanto que nos demais contextos humanos, as sugestões não tem, necessariamente, este objetivo e nem é utilizada de maneira tão cuidadosa como se deveria.
No entanto, todas essas diferenças tem apenas caráter didático, pois não há como impedir que o professor, pastor ou guru, usem de seu carísma e prestígio para induzir idéias, crenças e valores. Somos por natureza seres sugestionávies e nossa personalidade é moldada a partir da relação entre a nossa estrutura genética e o ambiente cultural em que vivemos.
Não se pode também reduzir tudo à hipnose, pois como descrito neste texto, as diferentes formas de sugestão já existiam antes mesmo da descoberta da hipnose. A criação do termo hipnose representou apenas uma forma delimitar o estudo da sugestão, a partir de uma vertente científica direcionada principalmente para a área da saúde.
Infelizmente a mídia ajudou a mitificar e a distorcer o sentido de um dos tratamentos mais humanizados da medicina, transformando-a em mero sensacionalismo barato. Por isso, alguns países, como a Espanha, passaram a adotar um novo termo para a hipnose, numa tentativa de “limpar o seu nome” – lá, eles a chamam de Sofrologia.
Se o sensacionalismo pudesse ser progressivamente substituídos por informações relevantes e sérias, mostrando os vastos benefícios das pesquisas sobre hipnose na saúde, haveria uma boa esperança para que essa representação social negativa se modificasse. Enquanto isso não acontecer, o sensacionalismo barato (como no filme abaixo) continuará dominando o conhecimento popular da hipnose e dando pontos no Ibope para programa que contratam hipnotizadores de palco para “dominar mentes’ e fazer pessoas comerem cebolas.
Leon Vasconcelos Lopeshipnólogo, mestre em saúde coletiva
Referências
FERRÉS, Joan.Televisão Subliminar: socializando através de
comunicações despercebidas
FREUD, Sigmund. Relatório sobre meus estudos em Paris e Berlim. In: Edição
Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de
Janeiro: Editora Imago.v.1, [1956(1886)].
KEITH, Thomas. Religião e o Declínio da Magia: crenças populares
na Inglaterra, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
PRADO, Fernando Negrão. Revisão Histórica da Hipnologia: de Paracelso
ao grande declínio 1529 – 1789. v.1, 1967. (Separata da Revista “Brasil-Médico” vol.81).
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O médico chamou um padre e um cirurgião, enquanto se munia de uma maleta com um morcego vivo dentro dela. Ao paciente ele informou que precisaria passar por uma pequena operação para se curar. O padre iniciou uma prece e o cirurgião fez uma ligeira incisão nas costas do paciente. No momento em que foi feito o corte, o médico abriu a maleta e o morcego saiu voando pelo quarto, e médico gritou: “Olha, olha, o demônio foi embora!”. O homem acreditou e sarou.
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