1) O que é hipnose?
É a utilização de um conjunto de técnicas psicológicas que visa produzir alterações nos padrões de pensamentos e percepção da realidade. O sujeito em transe hipnótico vivencia um estado de atenção concentrada, chamado de Estado Alterado de Consciência. Esse estado potencializa as resposta à sugestão, o que permite que a imaginação seja guiada e construa uma realidade alternativa, semelhante a um sonho que é vivido como se fosse real.
O interessante é que durante a hipnose as funções automáticas podem ser controladas por meio da sugestão verbal do hipnólogo. Com isso é possível obter a redução dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, alterar a temperatura de partes do corpo, aumentar ou diminuir a salivação, aumentar ou diminuir o fluxo sanguíneo em regiões específicas, aumentar ou ampliar a sensibilidade a dor, etc.
2) Quais os primeiros registros científicos da hipnose?
Os registros na medicina se iniciaram, por volta de 1745, impulsionados pelo trabalho do médico austríaco Anton Franz Mesmer. No entanto, o modelo teórico defendido por Mesmer não era compatível com as exigências materialistas do início da ciência moderna. As características subjetivas presentes no transe acabaram por lhe render uma associação com experiências religiosas e charlatanismo, o que nessa época já passava a ser algo que deveria ser combatido, caso não se adequasse as exigências materialistas do novo saber que surgia, a Ciência Moderna.
Somente a partir de 1843, a terapêutica de Mesmer ganhou uma reformulação, sendo explicada por uma teoria fisiológica. A criação do termo ‘hipnose’ representou essa transição e as primeiras pesquisas descreviam casos bem sucedidos de cura de enfermidades e anestesia em cirurgias. Isso fez da hipnose a primeira técnica de intervenção psicológica a obter reconhecimento científico da sua eficácia clínica, mesmo antes de existir o que viria a ser chamando de “Psicologia”.
3) Quem pode fazer uso dessa terapia?
No Brasil, não há legislação que regularize o uso de psicoterapias, apenas de terapias físicas e biológicas, portanto, o campo está aberto para todos os tipos de uso, sejam eles éticos ou não. O risco que correm esses terapêutas é o de crime por exercício ilegal da medicina, o que só acontece após denuncia formal e imprudência.
Já os profissionais da saúde, pessoas graduadas em cursos superiores da área da saúde, só podem aplicar determinada técnica ou procedimento se esse for regulamentado pelo seu respectivo conselho profissional. Neste caso, dentistas, médicos, psicólogos e, recentemente, fisioterapeutas, podem usar a hipnose, caso tenham passado por treinamento e a utilize como uma ferramenta auxiliar no exercício de sua profissão. Dentista e fisioterapeuta usando hipnose para querer tratar transtornos psicológicos é considerado imprudência profissional, o mesmo valeria para o psicólogo que quisesse usar a hipnose para tratar cáries ou uma lesão articular de um paciente.
Por outro lado, o uso mais comum da hipnose é fora da área da saúde, o que extrapola a sua indicação. Nos ambientes religiosos, ou em reuniões e palestra para venda de produtos, como no marketing de rede, é comum se fazer uso disfarçado das técnicas da hipnose. Neste caso, o objetivo seria manipular as emoções das pessoas e torná-las mais suscetíveis às idéias que estão sendo propostas e as sugestões que estão sendo dadas. Entregar tudo o que se tem, salário, imóveis, veículo, por acreditar na palavra de alguém que promete a obtenção de uma graça divina, não é algo nem um pouco razoável para uma pessoa em seu estado normal de consciência.
4) Qual a formação necessária para ser hipnólogo?
Não há uma regulamentação específica, portanto uma pessoa pode ler um livro de hipnose, ou fazer um curso pela internet, e se auto-intitular hipnólogo. Cabe aos que buscam os serviços, principalmente os de saúde, analisar quem é o profissional e verificar sua formação e indicações por pessoas de confiança.
5) Para quais problemas a hipnose pode ser usada como tratamento?
Todo problema humano envolve aspectos psicológicos, até se uma pessoa contrair uma gripe e estiver deprimida, o seu sistema imunológico será afetado e o organismo terá mais dificuldades para se curar. Quando a aplicação da hipnose visa à promoção da saúde, ela pode ser utilizada na maioria das situações, pois trata-se de uma abordagem que buscará apaziguar os conflitos psicológicos e promover o bem-estar. Se um profissional não está capacitado a tratar alguém sem hipnose, ele também não estará capacitado a tratar com a hipnose. Isso porque a hipnose não é um tratamento em si, mas um procedimento que facilita a psicoterapia, a intervenção médica, odontológica, ou fisioterapeutica.
6) Quais os benefícios e enquanto tempo eles aparecem?
Não há como precisar, depende de cada pessoa e de cada situação, mas sabe-se apenas que o uso da hipnose torna as terapias mais breves, durando, em média, de 5 a 12 sessões. Ou seja, já deve haver um plano terapêutico, uma forma de terapia pela qual a hipnose irá facilitar. Do ponto de vista terapêutico, isoladamente, a hipnose só serve para controlar momentaneamente a percepção, sendo usada em pequenas cirurgias, ou situações aflitivas restritas. Mas em conjunto com uma boa orientação e intervenção psicológica, ela pode ter um efeito imediato e não são raros bons resultados em até três sessões.
7) Existem quantos tipos de hipnose?
Apenas uma. O que muda é a forma de produzir a hipnose. É mais comum que os profissionais com formação predominantemente biológica prefiram o modelo clássico de indução, na qual sugestões diretas e autoritárias são usadas para tentar produzir o transe hipnótico. Já os profissionais com formação humana, preferem um modelo mais convidativo e indireto, que busca produzir o transe de uma maneira mais natural e menos impositiva, também são chamados de: modelo parteno e modelo materno.
8- De que forma a terapia atua?
Do ponto de vista fisiológico, a experiência de transe hipnótico pode promover a liberação de neurotransmissores que aliviam o estresse e elevam a imunidade. Já no campo psicológico, a hipnose pode ser usada para facilitar a modificação de crenças, gerando novos comportamentos mais adaptados. Há também uma perspectiva psicobiológica que sugere que a experiência de transe poderia desencadear a ativação de genes específicos, ativadores de mecanismos naturais de auto-cura. Esta teoria poderia elucidar os os mecanismos de ação dos casos de curas que acontecem em abientes não médicos, como na religião.
No entanto, essa divisão em fisiologia e psicologia, é uma grande bobagem, pois apenas mostra como o ser humano é fragmentado e isolado para ser estudado pelas atuais técnicas científicas. A mente influencia o corpo e o corpo influencia a mente, apesar do corpo ser o grande astro, já que há toda uma industria que se sustenta a partir da estética visual (plástica, juventude, atletismo) e outra que promete felicidade, prazer e tranquilidade em cápsulas e comprimidos.
9) Quais as dúvidas mais frequentes dos pacientes ao iniciar um tratamento?
A maioria quer saber se vai ficar inconsciente, se vai dormir, se vai ter seus segredos revelados, coisas que não acontecem. A pessoa apenas relaxa e usa sua imaginação para se desligar do ambiente físico e se projetar nos seus pensamentos, lembranças e sensações. Ela é guiada para encontrar novas soluções para seus problemas e é ajudada a atingir essas metas elaboradas na psicoterapia.
10) A união da hipnose com outras áreas da saúde é recente? Tem mostrado resultados?
A hipnose surgiu como uma técnica que facilitava a cura de doenças, depois passou a ser usada como uma técnica de investigação experimental, sendo a forma intervenção psicológica mais pesquisada da história. Até o ano 2000, há registro de mais de cem mil projetos de pesquisas sobre hipnose, e, nos últimos cinqüenta anos, ela foi tema de trabalhos publicados nas mais conceituadas revistas científicas, o que mostra sua importância para várias áreas do conhecimento humano.
11) Auto-hipnose é segura?
A auto-hipnose é apenas uma técnica de relaxamento, pois são raríssimas as pessoas que conseguem gerar fenômenos hipnóticos mais complexos por auto-hipnose, como a produção de anestesia em um membro. O mais comum é se usar o termo ‘auto-hipnose’ como pretexto para hipnotizar as pessoas, o que já não seria mais ‘auto’, e sim, ‘hetero-hipnose’. Pessoas sem segurança ou formação adequada podem usar o termo “curso de autohipnose” para tentar se esquivar do fato de que ela está praticando a hipnose. Seria semelhante a um curso de auto-cirurgia em que o professor, que não é médico, usa esse termo como pretexto para se isentar de um processo por uso ilegal da medicina. A hipnose é uma técnica relacional, isso é um dos aspectos que a diferencia da meditação e o que a fez se tornar um procedimento médico.
Questõs elaboradas pela estudante de jornalismo Isabelle Leal, em 20 de Novembro de 2009.
Entrevistado: Leon Vasconcelos Lopes, psicólogo, especialista em hipnose clínica, mestre em Saúde Coletiva.