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Medicina Comportamental e Modificação do Comportamento

Condicionamento e Estresse

Condicionamento Psicofisiológico

O condicionamento se tornou um termo comum entre a população, muito embora a visão popular sobre este processo o compreenda apenas como uma associação simples entre eventos, ou comportamentos. No entanto, o condicionamento não se restringe a isso, ele pode, dentre outras coisas,  criar um vínculo entre  o estresse emocional e reações corporais, levando ao surgimentos de sintomas e de doenças. Vejamos como isso é possível, logo abaixo:

O Condicionamento Reflexo Básico:

Foram as pesquisas do fisiologiasta russo, Ivan Pavlov, que revelaram a possibilidade de que um Reflexo Inato do organismo poderia ser provocado pela apresentação um Objeto Neutro, contanto que esse objeto neutro tivesse sido várias vezes apresentado durante a reação reflexa normal do organismo.

reflexo condicionado

Quando um cão se depara com o cheiro ou a visão de uma comida apetitosa o Reflexo Incondicionado provoca a produção de saliva. Para os mamíferos, o leite materno seria o Estímulo Incondicionado Básico, que provoca uma reação inata do organismo fazendo os filhotes sugarem.

Pavlov descobriu que se um estímulo que não provocava nenhuma reação fisiológica anterior (como uma luz, um sino, um toque, etc) fosse emparelhado com a apresentação do alimento, após algumas repetições, o estímulo que antes era neutro passaria a provocar a produção de saliva, se tornando, desse modo, um Estímulo Condicionado. A essa descoberta, ele chamou de Condicionamento Reflexo.

Não só eventos, mas o discurso sugestivo que induz ameaças, geralmente, provenientes de pessoas próximas e com certa autoridade, pode também se tornar um meio de condicionamento do comportamento, conforme ilustra a figura abaixo:

cond fobia

Condicionamento, Saúde e Doenças

Até então, a descoberta do Condicionamento era algo interessante, mas aparentemente se resumia a isso. Porém, novos estudos, ainda com animais, mostraram que o poder do condicionamento estava além do salivar de cachorros depois de escutarem o “dingombel de sinos” , ele poderia se estender e afetar toda a fisiologia do organismo. Conforme demonstra o seguinte experiemento:

pavlov2

Um cão é isolado em  laboratório e tem seus batimentos cardíacos monitorados. Em determinado momento, os experimentadores liberam no soro, conectado ao cachorro, uma dose de adrenalina. Como ela compõe um dos hormônios do estresse, a resposta natural a ela, provoca o acelerar dos batimentos cardíacos.

Para testar a força do condicionamento (ou seja, da aprendizagem) sobre as respostas naturais do organismo, os cientistas realizaram o seguinte experiemento :

Administram Acetilcolina na corrente sanguínea de um cão, repetidas vezes, ao mesmo tempo que uma sirene era tocada. A acetilcolina provoca uma resposta natural de relaxamento, justamente, o oposto da adrenalina. Após o condicionamento, a sirene se torna um Estímulo Condicionado, ou seja, somente o seu toque faz com que os batimentos cardíacos diminuam, sem precisar injetar a acetilcolina. Mas dessa vez, ao invés de injetar acetilcolina, os cientistas injetaram adrenalina e tocaram a sirene.

O resultado foi marcante. Mesmo com a injeção de adrenalina, os batimentos cardíacos do cão continuram baixos! O experimento revelou que a aprendizagem pode exercer uma influência tão forte capaz de suprimir as próprias respostas fisiológicas naturais do organismo.

Padrões de Condicionamento

Na nossa vida cotidiana, nosso comportamento está sendo constantemente condicionado. Dependendo do modo como os estímulos são apresentados, podemos rapidamente modificar nosso comportamento em resposta a mudanças, ou também, nos tornar escravos dos nossos hábitos e comportamentos condicionados.

Reforços Contínuos

Os comportamento que são reforçados continuamente são mais fáceis de serem mudados. Temos como exemplo desse tipo de condicionamento, as máquinas de venda automática de refrigerantes. Você coloca o dinheiro e ela deve liberar o refrigerante, se isso não acontecer, provavelmente, você não ficará passivo, buscará falar com algum responsável, balançará a máquina e dificilmente colocará mais dinheiro. O mesmo vale para o caixa eletrônico do seu banco que não liberou as cédulas!

Há situações um pouco diferentes de reforçamento continuo que, embora o comportamento continue sendo reforçado continuamente, o tempo exerce influência sobre o comportamento. É o caso do elavador que você aperta o botão e espera algum tempo para que ele chegue ao seu andar. O mesmo acontece com o salário, você trabalha hoje para receber o pagamento depois de algum tempo. Nesses casos, você continua sendo reforçado continuamente,  mesmo com uma certa latência. Se por acaso, o elevador não chegue em 5 minutos, ou seu salário atrase por alguns meses, você não ficará passivo, e partirá para luta ou fuga!

Reforços Aleatórios

Por outro lado, há comportamentos que são extremamente resistentes a mudanças. Eles são, em geral, mantidos por esquemas de reforçamento aleatório, sem que se possa prever o momento exato que será apresentado o reforço. Os exemplos mais conhecido deste tipo de condicionamento são os dos jogos de azar. Enquanto a máquina de refrigerantes e o caixa eletrônico podem fazer você “fazer um barraco” para obter o seu reforçador (refrigerante ou dinheiro), a máquina de caças-níqueis, os jogos de baralho, ou a Mega-Sena, entre muitos outros, tomam o dinheiro de milhões de pessoas, anos após anos, sem que elas tenham qualquer atitude de rebeldia, ou de mudança de comportamento, elas estão crônicamente condicionadas.

Condicionamento e Estresse

psicologia estresse1

Infelizmente, boa parte dos casos de alterações na saúde por disfunções orgânicas, causadas pelo estresse, são reforçadas de também de modo aleatório, o que deixa as pessoas muito resistente às mudanças.

A forma como isso acontece é bem simples, e segue a mesma lógica de raciocínio dos eventos citados anteriormente:

  • O ser humano possui respostas inatas que são acionadas frente ao perigo. Diante de uma ameça, o hipotálamo ordena que as glândulas supra-renais liberem os hormônios do estresse: a adrenalina eleva os batimentos cardíacos, contraindo os vasos sanguíneos; a cortisona prepara o fígado para usar as reservas de glicose e queimar as proteínas musculares quando a glicose chegar ao fim (todo o trabalho de esculpir o corpo na academia está ameaçado); as endorfinas amortecem a dor, pois diante do perigo, o importante é salvar a vida.
  • O mecanismo natural do estresse prepara o ser humano para ameaças reais, coisas que assustavam os homens no passado, como o ataque de um animal selvagem, ou de invasores. Mas é o mecanismo de condicionamento que acaba por transpor para outros objetos e eventos neutros a capacidade de provocar uma resposta hormonal. Desse modo, o cérebro passa a estimular a liberação de hormônios repetidas vezes por dia frente a falsas ameaças que foram condicionadas e funcionam como ameaças reais.
  • O estresse crônico traz graves consequências para a saúde, pois hormônios como a cortisona, além de fazer seu corpo queimar as proteínas e acumular gordura, dando-lhe uma aparência física fora de forma, também deprime o sistema imunológico, deixando seu organismo mais vulnerável a doenças e infecções, e diminuindo a velocidade de recuperação.
  • O efeito desses hormônios é sistêmico, ou seja, afeta todo o organismo. As terapias medicamentosas, ou físicas,  padronizadas da medicina convencional, não conseguem dar conta sozinhas do recado, pois há um padrão de comportamento que foi aprendido e que provoca as respostas involuntárias do seu organismo (lembre do experimento com o cão, a injeção de adrenalina não surtiu efeito, após o animal ser condicionado pela sirene).
  • Os remédios são composto de substâncias que tentam bloquear o efeito desses hormônios, ou impedir a degradação de substâncias benéficas, mas enquanto o comportamento persistir, os sintomas serão apenas adiados pelo uso dos medicamentos, o que pode agravar a situação, pois não modifica os condicionamentos que estão na base da disfunção, além de causar dependência a esses remédios.
  • As pausas breves, ou as pequenas mudanças na vida, podem não ser suficientes para modificar as respostas condicionadas do seu organismo, justamente, por elas terem sido reforçadas de modo aleatório, tornad0 o comportamento de ser modificado. Por isso, há necessidade de avaliação e intervenção psicológica eficientes, para modificar as respostas aprendidas.

A quantidade de estimulação que recebemos diariamente em nossas vidas é tão grande, e sem uma ordem pre-estabelecida, que contribui para a generalização de uma gama de comportamentos. Os próprios pacientes tem dificuldade de saber quando exatamente começaram os seus sintomas e o que os mantém. A descoberta e o entendimento do próprio comportamento é o primeiro passo para o desenvolvimento de mudanças.

Circuito de Comunicação Mente-Corpo do sistema neuropeptídeo sujeito a alterações processuais decorrentes da aprendizagem, memória e comportamento dependente-de-estado (ROSSI, 1997).

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autor

Leon Lopes
psicólogo e jornalista
mestre em saúde coletiva
criador do site: www.comportamento.net