Entrevista sobre Hipnose com Leon Lopes

leonaula1) O que é hipnose?

É a utilização de um conjunto de técnicas psicológicas que visam produzir alterações nos padrões de pensamentos, sensações e percepção da realidade de uma pessoa. O sujeito em transe hipnótico vivencia o que é chamado de Estado Alterado de Consciência, durante esse período a imaginação do hipnotizado constrói uma realidade paralela, semelhante a um sonho que é vivido como se fosse real.

2) Quais os primeiros registros científicos da hipnose?

Os registros na medicina se iniciaram, por volta de 1745, impulsionados pelo trabalho do médico austríaco Anton Franz Mesmer. No entanto, o modelo teórico defendido por Mesmer não era compatível com as exigências materialistas do início da ciência moderna. As características subjetivas presentes no transe acabaram por lhe render uma associação a experiências religiosas, o que nessa época já passava a ser algo que deveria ser desacreditado frente ao novo saber que surgia, a Ciência Moderna.

Somente a partir de 1843, a terapêutica de Mesmer ganhou uma reformulação, sendo explicada por uma teoria fisiológica. A criação do termo ‘hipnose’ representou essa transição e as primeiras pesquisas se resumem a descrever casos bem sucedidos de cura de enfermidades e anestesia em cirurgias. Isso fez da hipnose a primeira técnica de intervenção psicológica a obter reconhecimento científico da sua eficácia clínica, mesmo antes de existir o que viria a ser chamando de Psicologia.

3) Quem pode fazer uso dessa terapia?

No Brasil, não há legislação que regularize o uso de psicoterapias, apenas de terapias físicas e biológicas, portanto, o campo está aberto para todos os tipos de uso, sejam eles éticos ou não. O risco que correm esses terapêutas é o de crime por exercício ilegal da medicina, o que só acontece após denuncia formal.

Por outro lado, o mais comum é a aplicação de técnicas de hipnose em  outros contextos, como em ambientes religiosos, ou em reuniões e palestra para venda de produtos, como no marketing de rede. Neste caso, o objetivo seria manipular as emoções das pessoas e torná-las suscetíveis às idéias que estão sendo defendidas.

4) Qual a formação necessária para ser hipnólogo?

Não há regulamentação, portanto uma pessoa pode ler um livro de hipnose, ou fazer um curso pela internet, e se auto-intitular hipnólogo. Cabe aos que buscam os serviços, principalmente os de saúde, analisar quem é o profissional e verificar sua formação.

5) Para quais problemas a hipnose pode ser usada como tratamento?

Todo problema humano envolve aspectos psicológicos, até se uma pessoa contrair uma gripe e estiver deprimida, o seu sistema imunológico será afetado e o organismo terá mais dificuldades para se curar. Quando a aplicação da hipnose visa à promoção da saúde, ela pode ser utilizada na maioria das situações, pois trata-se de uma abordagem que buscará apaziguar os conflitos psicológicos e promover o bem-estar. Se um profissional não está capacitado a tratar alguém sem hipnose, ele também não estará capacitado com a hipnose, pois ela não é um tratamento em si, mas um procedimento que facilita a psicoterapia, ou seja, a mudança de crenças e pensamentos disfuncionais que levam a estados de ansiedade, depressão e estresse.

6) Quais os benefícios e enquanto tempo eles aparecem?

Não há como precisar, depende de cada pessoa e de cada situação, mas sabe-se apenas que o uso da hipnose torna as terapias mais breves, durando, em média, de 5 a 12 sessões. Ou seja, já deve haver um plano terapêutico, uma forma de terapia pela qual a hipnose irá apenas facilitar. Do ponto de vista terapêutico, isoladamente, a hipnose só serve para controlar momentaneamente a percepção, sendo usada em pequenas cirurgias, ou situações aflitivas restritas.

7) Existem quantos tipos de hipnose?

Apenas uma. O que muda é a forma de produzir a hipnose. É mais comum que os profissionais com formação predominantemente biológica prefiram o modelo clássico de indução, na qual sugestões diretas e autoritárias são usadas para tentar produzir o transe hipnótico. Já os profissionais com formação humana, preferem um modelo mais convidativo e indireto, que busca produzir o transe de uma maneira mais natural e menos impositiva.

8- De que forma a terapia atua?

Do ponto de vista fisiológico,  a experiência de transe hipnótico pode ajudar na liberação de neurotransmissores que aliviam o estresse e elevam a imunidade. Já no campo psicológico, a hipnose pode ser usada para facilitar a modificação de crenças, gerando novos comportamentos mais adaptados. Há também uma perspectiva psicobiológica que sugere que a experiência de transe poderia desencadear a ativação de genes específicos, ativadores de mecanismos naturais de auto-cura. Esta teoria poderia elucidar os os mecanismos de ação dos casos de curas que acontecem em abientes não médicos, como na religião.

9) Quais as dúvidas mais frequentes dos pacientes ao iniciar um tratamento?

A maioria quer saber se vai ficar inconsciente, se vai dormir, fato que não acontece. A pessoa apenas relaxa e usa sua imaginação para se desligar do ambiente físico e se projetar nos seus pensamentos, lembranças e sensações.

10) A união da hipnose com outras áreas da saúde é recente? Tem mostrado resultados?

A hipnose surgiu como uma técnica que facilitava a cura de doenças, depois passou a ser usada como uma técnica de investigação experimental, sendo a forma intervenção psicológica mais pesquisada da história. Até o ano 2000, há registro de mais de cem mil projetos de pesquisas realizados sobre hipnose, e, nos últimos cinqüenta anos, ela foi tema de trabalhos publicados nas mais conceituadas revistas científicas, o que mostra sua importância para várias áreas do conhecimento humano.

11) Auto-hipnose é segura?
Auto-hipnose é apenas uma técnica de relaxamento, pois são raríssimas as pessoas que conseguem gerar fenômenos hipnóticos mais complexos por auto-hipnose, como a produção de anestesia em um membro. O mais comum é se usar o termo ‘auto-hipnose’ como pretexto para hipnotizar as pessoas, o que já não seria mais ‘auto’, e sim, ‘hetero-hipnose’.

Questõs elaboradas pela estudante de jornalismo Isabelle Leal, em 20 de Novembro de 2009.

Entrevistado: Leon Vasconcelos Lopes, psicólogo, licenciado em psicologia, jornalista, especialista em hipnose clínica, mestre em Saúde Coletiva.

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